O II Workshop de Política Pública sobre Drogas realizou mesas redondas durante a manhã desta sexta-feira (5), no auditório da procuradoria-geral de Justiça, em Candelária. A programação foi reiniciada com a mesa redonda “A política de drogas no Brasil: a intersetorialidade na prevenção, no cuidado e na repressão”.
Sobre o eixo prevenção falou Ana Ferraz, da coordenadoria geral de Prevenção da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad). Para ela, a prevenção é um dos campos mais difíceis e complexos do enfrentamento às drogas, pois busca atingir o comportamento das pessoas e intervir na cadeia de acontecimentos para evitar maiores agravos.
Ana Ferraz deu o exemplo do combate a dengue, zika e chikungunya, doenças epidemiológicas sobre as quais todo mundo conhece a importância fundamental de se acabar com os vetores, mas difícil controlar, pois exige mudança dos hábitos do cidadão. Prova de que somente a informação não resolve.
Em sua palestra, a especialista falou sobre as intervenções mais comuns de prevenção, que são ações mais pontuais como a distribuição de cartilhas e materiais informativos, realização de palestras e campanhas na mídia.
Foi destacado destacou a necessidade de se trabalhar com intervenções mais direcionadas e específicas para cada público, observando os fatores de risco que mudam com a idade. E repassou também alguns dados de pesquisa recente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), como o que identifica que 29% dos usuários de crack relatam como motivo para o uso abusivo da droga, as perdas afetivas, problemas familiares e violência sexual.
A palestrante defende a mudança de paradigma para alcançar o foco nas pessoas muito mais do que nas substâncias, com fortalecimento dos indivíduos, suas habilidades e a comunidade, além da integração das ações.
A socióloga sanitarista Graziella Barbosa Barreiros, do Projeto Redes na região Sudeste, falou sobre o eixo cuidados e a relação com os usuários e suas fragilidades. Para ela, o que dizima gerações não é a droga, como o crack, o que dizima gerações é o abandono e a falta de perspectivas.
Ela alerta para a necessidade de se construir um trabalho em rede, integral e comunitário, com reinserção social, geração de trabalho, renda e moradia, com garantia e defesa de direitos, para que o cidadão seja mais forte e dependa de mais coisas, não só das drogas. “Estamos repetindo exaustivamente o mesmo atendimento ao usuário, que acaba retornando com a mesma demanda. Será que estamos sabendo ouvi-lo? Será que não precisamos rever nossa forma de prestar o cuidado necessário?”, disse.
No eixo repressão o palestrante foi o representante do UNODC no Brasil, o uruguaio Rafael Franzini. Ele chamou atenção que o investimento na redução da oferta de drogas e muito maior do que na redução da demanda e pontuou que é preciso observar o mercado para saber como melhor reagir.
“O Estado combateu muito tempo errado, o mercado muda muito, o tráfico de drogas está no contexto do crime organizado e temos que desenvolver ferramentas distintas de repressão”, destacou Rafael Franzini, para quem a legalização das drogas não implica no desaparecimento do crime organizado.
O workshop teve sequência com a mesa redonda “Os desafios do cuidado integral e intersetorial e a exclusão social no Brasil – o cuidado na política sobre drogas, com mediação do presidente do Coned/RN, Adriano Araújo.